Texto da Maria Clara Assunção
May 14th, 2004 por Tiago MurakamiHá um certo mito em relação à quase inexistência de livros na Idade Média que não corresponde inteiramente à verdade. É certo que apenas uma elite sabia (ou estava interessada em saber) ler mas o sucesso obtido pela tipografia demonstra que essa elite também não era assim tão pequena.
Desde o séc. 12 que o desenvolvimento das universidades no Al-Andaluz (o sul de Espanha, então ainda árabe), na Itália, em França, na Inglaterra e em Portugal, a par da ascensão de uma classe plebeia abastada (a burguesia) tinha permitido que a cultura erudita saísse dos conventos e mosteiros e fosse acessível (desde que houvesse dinheiro e vontade para isso) a pessoas de diferentes proveniências. Sendo a instrução um dos poucos meios de ascensão social, eram mais os burgueses interessados em obtê-la do que os nobres que, na maior parte dos casos, não sabia nem queria saber ler.
Os livros manuscritos (códices) tiveram nessa altura grande expansão e foram adoptados métodos de produção em série de manuscritos através da organização dos chamados «scriptoria» onde dezenas de copistas copiavam incansavelmente os livros e manuais dos estudantes. Na maior parte dos casos o sistema estava tão bem montado que cada copista não copiava um livro inteiro mas apenas um caderno, sendo a junção dos cadernos feita posteriormente pelo encadernador.
Não se sabe ao certo o volume de códices em circulação na Europa por altura da invenção da tipografia mas a resistência e esta nova tecnologia por parte da classe dos copistas faz pensar que empregava muita gente. Também é curioso notar que a própria Igreja teve alguma resistência ao uso da tipografia pois tinha os seus próprios «scriptoria» tendo continuado a produzir livros litúrgicos manuscritos até ao séc. 19.
No séc. 15 a classe burguesa está bem consolidada, principalmente devido à prosperidade dos estados italianos que, durante toda a Idade Média, tinham assegurado o comércio com o Oriente através do Mediterrâneo (só o perderiam para os Portugueses depois da descoberta do caminho marítimo para a Índia).
Pelo contrário, a nobreza e a Igreja sofrem um forte abalo para o qual contribuem factores concomitantes como a degeneração moral do clero, a forte promiscuidade entre Igreja e poder político, a relativa pacificação da Europa ocidental com o fim da Guerra dos Cem anos, a decadência do sistema feudal e a sua substituição por monarquias centralizadas (de que «O Príncipe» de Maquiavel é o paradigma).
Também no séc. 15 se dá a queda do Império Bizantino e a migração de intelectuais para Ocidente (designadamente para a Itália) intelectuais esses que mantinham ainda um conhecimento bastante aproximado da cultura greco-latina e que iriam promover na península italiana o florescimento literário e artístico do «quattrocento» que ficou conhecido por Renascimento.
É ainda no início do séc. 15 que Portugal inicia a expansão marítima. A cada navio que regressava, chegavam conhecimentos de novas terras, novas gentes e novas técnicas. A expansão portuguesa deixaria ainda uma forte herança na proliferação da literatura de viagens do séc. 16.
Tudo isto pode parecer irrelevante para a questão da tipografia mas é da máxima importância. O forte desenvolvimento cultural que se adivinha a partir do séc. 12 e prossegue em crescendo contínuo até ao séc. 15 levara já a várias tentativas de produção mecânica de livros. Antes da tipografia já se imprimia pela técnica da xilografia (do grego xilo = madeira) mas esta técnica, que permitia a reprodução de grande quantidade de livros, era muito demorada na fase de elaboração das placas de impressão que tinham de ser integralmente esculpidas em madeira (hoje diríamos que o tempo perdido com o input não compensava os resultados do output…).
A tipografia, na verdade, é apenas o mais bem sucedido de todos os métodos experimentados. Ao empregar caracteres móveis (os tipos) esta técnica permitia a combinação infinita e a elaboração ilimitada de textos o que agilizou de forma incomparável de impressão.
Mas não podemos ignorar que, se esta técnica teve impacto foi porque já existia uma procura ávida de livros. A tipografia, em si mesma, não fez a revolução; a revolução estava já em marcha mas faltava-lhe a «arma de construção maciça» que permitisse aquilo que, 500 anos depois, Ranganathan exprimiria tão bem: «A cada livro o seu leitor, a cada leitor o seu livro».
Maria Clara Assunção


May 14th, 2004 at 13:55
E como e qual será a próxima revolução? Haverá alguma?
Belíssima aula de História!
May 20th, 2004 at 11:25
Tiago, só hoje vim ao BSF. Obrigada por publicares o meu texto.
September 12th, 2006 at 16:16
Prezada, Maria Clara
Por favor, imagino que seja você a autora da dissertação: Catalogação de música impressa…
Se for, gostaria que vc me enviasse algum end. eletrônico para eu entrar em contato com vc. Pois minha monografia é sobre título uniforme para recueração da música erudita, mais precisamente, a música de compositores brasileiros, enfim…tenho estudado através da sua dissertação entre outras publicações, mas considerando seu envolvimento e domínio desse tema desejaria ter um meio de correspondência mais direto com vc?!
grata
Suzilaine